Proposta de redação: As dificuldades enfrentadas pelos jovens no mercado de trabalho

A partir da leitura dos textos motivadores e com base nos conhecimentos construídos ao longo de sua formação, redija texto dissertativo-argumentativo em norma-padrão da língua portuguesa sobre o tema: As dificuldades enfrentadas pelos jovens no mercado de trabalho. Apresente proposta de ação social que respeite os direitos humanos. Selecione, organize e relacione, de forma coerente e coesa, argumentos e fatos para defesa de seu ponto de vista.

 

 

Escolaridade, qualificação e inserção dos jovens no mercado de trabalho

Alexandre Queiroz Guimarães & André Braz Golgher

O grau de escolaridade é o fator que mais afeta as chances de inserção e ascensão na vida profissional. É preciso ações que contribuam para o fortalecimento contínuo de indivíduos muito vulneráveis, em um processo de longo prazo

A inserção produtiva dos jovens no mercado de trabalho é um tema desafiador. A falta de experiência e, em muitos casos, de qualificação dificulta a obtenção de um posto de trabalho. Isso se reflete em taxas mais altas de desemprego, em formas de trabalho precário e em baixas remunerações. A situação é bem ilustrada pelo impasse recente no Brasil: entre os jovens de 14 a 24 anos, o desemprego subiu de 15,3% no quarto trimestre de 2014 para 20,9% no mesmo período de 2015 e para 26,6% em março de 2016. Entre os adultos de 25 a 59 anos, o desemprego teria sido bem menor: 7,91% no último mês.

 

A dificuldade de inserção dos jovens não é exclusividade do Brasil. Nos países da União Europeia, por exemplo, o desemprego entre os jovens de 15 a 24 anos foi de 22,8% em 2012, 12 pontos percentuais acima do verificado para a população economicamente ativa. Em períodos de crise, os jovens tendem a ser os primeiros a ser demitidos. Entre outros fatores que afetam o ingresso no mercado de trabalho, incluem-se a escolaridade e a qualificação do trabalhador, o grau de regulação do mercado de trabalho e o dinamismo da economia.

 

O grau de escolaridade é o fator que mais afeta tanto as chances de inserção como de ascensão na vida profissional. Estudos mostram que o ensino universitário é o melhor caminho para avançar e ter oportunidades (Müller, 2005). Por contraponto, as dificuldades mais sérias são enfrentadas pelos indivíduos com baixa qualificação. No passado, esses trabalhadores eram incorporados em empregos de baixa qualificação na indústria, pois vigia o paradigma fordista, marcado pela linha de produção e pelo trabalho repetitivo e pouco elaborado. Isso se modificou com o esgotamento daquele padrão. A partir dos anos 1970, as economias ocidentais vêm convivendo com um mercado de trabalho muito segmentado: uma pequena elite muito qualificada, com acesso a bons empregos, convive com grande número de trabalhadores sujeitos ao desemprego e ao trabalho precário. Em um contexto marcado por mutações organizacionais e profissionais, cresce a demanda por trabalhadores qualificados e polivalentes (Veloso, Gonçalves e Parente, 1998).

 

Outro ponto é o impacto que o tipo de formação tem sobre as chances de inserção e avanço profissional. Em países como Alemanha, Áustria, Dinamarca e Holanda, a presença de uma tradição de treinamento vocacional, com a oferta de um treinamento mais direcionado a partir de certo momento da trajetória educacional, tende a ter impactos positivos sobre a inserção produtiva para os jovens (Guimarães e Almeida, 2014). As maiores dificuldades são enfrentadas pelos países do sudoeste europeu, que não se destacam pela formação vocacional ou pela qualidade da educação secundária, apresentam mercado de trabalho muito regulado e sofrem com a debilidade da indústria.

 

Veloso, Gonçalves e Parente (1998) analisaram o impacto dos cursos profissionalizantes em Portugal, França e Dinamarca, investigando os egressos de cursos nas áreas de metalurgia e mecânica e de têxtil e vestuário. O estudo encontra que os cursos ampliaram o acesso ao emprego nos três países, levando muitos indivíduos à primeira experiência de emprego. Nas experiências de França e Portugal, no entanto, os cursos têm menor efeito sobre as chances de ascensão na carreira e sobre a remuneração. Muitos indivíduos ficam presos em formas de trabalho precário. A fragilidade aparece principalmente na falta de conhecimento genérico e teórico e na dificuldade de adaptar o conhecimento a novos desafios. 

 

Os resultados são muito diferentes na Dinamarca, dada a especificidade do treinamento vocacional. Os estudantes são preparados por três a quatro anos para uma formação específica. As disciplinas incluem língua dinamarquesa e inglesa, matemática, física, questões ambientais e noções de mercado de trabalho. Parte da educação é na empresa, monitorada por uma comissão de trabalhadores e empregadores. Os cursos são valorizados socialmente e pelo sistema produtivo. É também comum a recontratação dos trabalhadores pelas empresas, que veem o treinamento como forma de elevar a produtividade. No momento da pesquisa, grande parte dos entrevistados estava ocupada em empregos não precários. A grande vantagem desse modelo é que há orientação para saberes práticos, teóricos, científicos e conceituais. Os fatos de as pessoas serem formadas como cidadãos, de a educação ser contínua e de os jovens desempenharem atividades laborais desde cedo são também positivos.

 

A situação no Brasil é mais dramática, resultado da baixa escolaridade média e da má formação de grande parte dos indivíduos. Outra dificuldade é a inserção precoce no mercado de trabalho, principalmente por parte dos jovens de famílias carentes, que, ao abandonarem a escola, comprometem as possibilidades futuras. Alguns percebem a condição e querem se qualificar, mas estão presos em longas jornadas de trabalho. Como visto, o desemprego entre os jovens tende a ser bem maior do que para a população adulta; além disso, a remuneração obtida tende a ser menor, enquanto as relações de emprego tendem a ser marcadas por alta rotatividade e pela frequente transição para o desemprego e para a inatividade (Santos e Gimenez, 2015).

 

Um exercício interessante é acompanhar o desempenho de um grupo de indivíduos ao longo da trajetória no mercado de trabalho. Observando, por exemplo, indivíduos que nasceram nos anos de 1983/84, nota-se que até os 21-22 anos o impacto da escolaridade não é alto. A partir dessa idade, entretanto, a escolaridade passa a fazer diferença e pessoas com ensino médio completo ou ensino superior tendem a ganhar bem mais do que aquelas com baixa escolaridade. Homens com mais de 25 anos com escolaridade maior que o ensino médio ganhavam em média mais que o dobro de quem tinha apenas o ensino médio e quatro vezes o que ganhava alguém sem o ensino médio (Gráfico 1).

Até a idade de 24/25 anos, as taxas de desemprego tendem a ser menores para indivíduos com menor escolaridade, mais propensos a aceitar empregos precários. No entanto, entre as pessoas acima de 30 anos, as mais escolarizadas têm menor probabilidade de estarem desempregadas. Outra constatação é que quanto menor a escolaridade, maior tende a ser a proporção de indivíduos que não trabalham, não estudam e não procuram emprego (a chamada “geração nem nem”).

Outro exercício interessante é analisar grupos que nasceram em anos diferentes comparando as dificuldades enfrentadas por cada faixa etária. Para as pessoas que não concluíram o ensino médio, o grupo que nasceu mais tarde (2000/2001) tendia a ter renda média superior aos grupos que nasceram mais cedo. Isso se explica pelas políticas de valorização do salário mínimo e por outros fatores ligados ao mercado de trabalho. Para quem tinha o ensino médio, as pessoas nascidas mais recentemente tendiam também a ter renda superior, mas com diferenças bem menores. Para quem tinha mais que o ensino médio, não houve diferença, pois a renda dessas pessoas segue outros determinantes.

Entretanto, quando se observam as taxas de desemprego, nota-se que, entre aqueles que não concluíram o ensino médio, os resultados são bem mais alarmantes para aqueles que nasceram mais recentemente (2000/2001). Para esse grupo, a taxa de desemprego aos 15/16 anos foi de 35% para os homens e de 50% para as mulheres, enquanto que para os outros grupos as taxas para os homens foram de 20%, e para as mulheres, de 30%. Isso se explica pelos efeitos da crise econômica recente.

Enfim, há o grupo daqueles que nem trabalham, nem estudam e nem procuram emprego. Jovens que têm menos do que o ensino médio estão saindo do sistema de ensino e enfrentando dificuldades de inserção no mercado de trabalho. Outros gostariam de continuar os estudos, mas não conseguem ingressar no ensino superior. Dados do MEC indicam que 1,8 milhão concluem o ensino médio a cada ano; há 7,6 milhões de jovens de 18 a 24 anos que concluíram o ensino médio e não ingressaram na universidade (Santos e Gimenez, 2015). A proporção dos “nem nem” por idade é maior para as gerações que nasceram mais tarde, resultado preocupante. É um problema daqueles com baixa escolaridade, dado que os com maior escolaridade inserem-se mais facilmente no mercado de trabalho.

Os resultados acima apontam para uma série de políticas. Em primeiro lugar, é necessário ampliar as condições para os jovens permanecerem na escola, o que pode ser feito com a concessão de bolsas e com estímulos para o ingresso no ensino universitário. Em segundo lugar, é preciso melhorar a qualidade da educação e requalificar/reciclar aqueles com formação precária. Isso passa pelos programas de educação de jovens e adultos e por iniciativas de formação/qualificação permanente, entre outros. É importante lembrar que a formação precisa ser mais do que a qualificação específica para uma atividade ou um meio para o primeiro emprego. Uma formação elaborada é essencial em face da formação precária de muitos brasileiros e das novas exigências do mercado de trabalho.

 

Avanços ocorreram recentemente no Brasil, com políticas voltadas a ampliar a oferta de ensino técnico e universitário e estímulos ao ingresso em cursos superiores. Houve grande aumento do número de alunos na educação terciária, que passou de 3,5 milhões em 2002 para 7 milhões em 2012. Dois programas contribuíram para isso: o Programa Universidade para Todos (Prouni) e o Financiamento Estudantil (Fies) (Santos e Gimenez, 2015). Entre 2005 e 2013, 1 milhão de alunos foram beneficiados pelo Prouni, que apenas em 2013 concedeu 1,2 milhão de bolsas, abrangendo 17% dos matriculados no ensino superior. O FIES também cresceu significativamente, firmando 377 mil contratos em 2012 e 556 mil contratos em 2013. Santos e Gimenez (2015) estimam que 17% dos estudantes em instituições particulares tinham contratos com o FIES.

 

Outra direção é o fortalecimento do ensino técnico e profissionalizante. Foi criado em 2011 o Programa Nacional de Acesso ao Ensino Técnico e Emprego (Pronatec), que oferece cursos gratuitos em nível técnico e profissionalizante. O programa teria atingido 8 milhões de matrículas em dezembro de 2014, 2,3 milhões em cursos técnicos e o restante em cursos de formação inicial e continuada (Santos e Gimenez, 2015). O Pronatec, entretanto, parece ter sofrido forte corte de recursos em decorrência da crise econômica. Além disso, é essencial avaliar os seus impactos sobre a empregabilidade dos egressos.

 

Em síntese, a experiência internacional mostra que existem alguns fatores que impactam a possibilidade de inserção do jovem no mercado de trabalho: o grau de escolaridade e o tipo de formação são dois dos mais importantes. O treinamento vocacional tende particularmente a favorecer a inserção do jovem no mercado. O Brasil enfrenta dificuldades adicionais, resultantes da baixa escolarização e da entrada precoce dos jovens no mercado de trabalho. 

 

Tudo isso reforça o papel de medidas para permitir maior dedicação aos estudos e para melhorar a qualidade da formação. As políticas de emprego para jovens também avançaram nos últimos anos, com destaque para os Consórcios Sociais da Juventude e o Pró-Jovem, mas enfrentaram inúmeras dificuldades relacionadas à qualidade da formação e às dificuldades de coordenação (Guimarães e Almeida, 2004). Uma dificuldade recorrente foi a oferta de cursos de curta duração, totalmente incapazes de trabalhar deficiências profundas.

 

Os desafios da política são enormes e não existe solução fácil: é preciso reunir ações de qualidade, que contribuam para o fortalecimento contínuo de indivíduos muito vulneráveis, em um processo de longo prazo. O papel do setor público passa por selecionar entidades capacitadas e coordenar e monitorar a qualidade das ações. A proximidade com os empresários tende a contribuir para o teor dos programas e para a viabilização de parte do treinamento nas empresas.

 

 

  • Alexandre Queiroz Guimarãesé doutor em Ciência Política, professor e pesquisador na Escola de Governo da  Fundação João Pinheiro. O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo.
     
  • André Braz Golgheré doutor em Demografia e professor do Departamento de Economia da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo.


Créditos da imagem:
VGstockstudio/Shutterstock.com

Fonte dos gráficos:
PNADs, 1999, 2002, 2005, 2008, 2011, 2014/3 e 2016/3

 

Vídeos de apoio

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